• Manuela Vinagre

As marcas da gente

Tem gente que tem memória curta, gente com memória de elefante e tem aqueles que, como eu, são seletivos (mas confesso que tenho um quê de Dory embutido aí). Procuro sempre lembrar daquilo que me marcou positivamente. Mas será que isso é saudável?

Ao escrever aqui me dou conta de que não, deveríamos também levar as marcas negativas conosco para aprendermos com elas, mas isso fica para uma outra hora. Meu objetivo hoje é relembrar os momentos positivos e falar sobre valorização.


Tem fatos que são significativos.


Tem cheiros que nos levam para algum lugar dentro de nós.


Mas são as pessoas que passam por nossas vidas, mesmo que de forma efêmera, que nos marcam. E já que estamos em uma plataforma voltada para a educação, enumerarei aqui alguns professores que me foram memoráveis, posso não lembrar o nome de todos, mas lembro de suas características.

Na terceira série (da minha época, hoje não sei qual série é. A tia é velha! Rs) tive uma professora de História, que era bisneta ou tataraneta de Duque de Caxias. Ela enchia a boca para falar. A aula dela era basicamente alunos lendo trechos de livros e ela explicando os fatos. Eu usava aparelho fixo e ela tinha fixação em me pedir que lesse em voz alta e, quando eu abria a boca, saía aquele som de língua presa e todos na turma riam, como sempre fui de me auto zoar, dizia que era meu charme e ria também. Ela fazia por mal? Não! Ela dizia que, apesar no aparelho, eu passava clareza por ler sem pressa.


Depois, na quarta série, teve a Claudeli. Ela era tão cuidadosa e sempre preocupada conosco. Era professora de Português e se desdobrava para que entendéssemos a matéria. Ela que inventou as aulas ao ar livre fazendo a turma interagir mais, “ensaiando” diálogos de livros que precisávamos ler, era um barato! Era ela que sempre elegíamos para que fosse nas excursões como monitora.


Nesse mesmo ano tive a professora Esbelta Summer de Geografia (que naquela época acho que era ciências sociais). Costumávamos chamá-la de jardineira do Jardim do Éden pois ela já lecionava nessa escola há uns bons anos e aqui existe um fato curioso, ela nunca parou de lecionar, mesmo aposentada ela tava lá, só parou quando faleceu. Ela possuía uma habilidade extraordinária de desenhar o mapa do Brasil na lousa sem nem olhar em livro algum. Como aquilo me encantava! Dava para notar sua paixão no que fazia, mesmo com a turma sendo de seres encapetados.


Na quinta série tive a Carla de Matemática, braba por fora, tentava ser a professora mais odiada, sentia prazer nisso, mas eu sentia que ela era uma manteiga derretida. Como pesquei isso, no final do ano escrevi uma cartinha contando como eu tinha dificuldade na matéria e como ela conseguiu tirar de mim esse bloqueio com números (depois voltou, sou de humanas, fazer o que né?), que ela deveria se aproximar mais dos alunos porque gostávamos da dinâmica de aula dela. Enquanto ela lia, nem acreditei, mas ela sabia chorar.


No cursinho teve um de Biologia, que era agrônomo (e gato toda vida!), que nossa, ningém explicava o Reino Plantae como ele. Até cogitei ser agrônoma por um milésimo de segundo. Teve o de História, que foi o melhor professor que eu tive até hoje dessa matéria. Como sou de fazer caras e bocas quando não entendo algo (tenho certeza absoluta que meu rosto vira uma grande interrogação vermelha neon piscante) ele compreendia que alguma dúvida eu tinha, interrompendo a aula e perguntando “Qual a dúvida senhorita?”.

Tiveram outros, alguns me “apaixonei”, alguns virei amiga, outros são casos tão hilários que mereciam um texto só para eles.


Nossa! E os da faculdade?

Fátima, Lucimara, Fábio!

Temos contato até hoje, os levei para vida!

Mas por que falei tanto sobre professores? Porque devemos aprender a valorizá-los. Costumamos achar que estão ali, nos ensinando, e que isso não é mais do que a obrigação deles. E que eles tem o dever nos ensinar e não é bem esse o caminho. Eles estão ali para nos introduzir em um mundo que cabe a nós, e somente a nós, explorar. Eles amam a profissão, que infelizmente em nosso país não é nada valorizada, e é nosso dever honrá-los (como fazem os japoneses), é nosso dever absorver o conhecimeto que eles tem para nos transmitir. Eles são inspirações. Reverenciemos mais essa profissão que, sem a qual, não seríamos nada. E se eu puder dar uma dica a vocês, para compreenderem o valor dessa profissão, assistam aos seguintes filmes:


- Madadayo, de Akira Kurosawa;

- Sociedade dos Poetas Mortos, de Peter Weir.


Com essas obras vocês entenderão o que é engrandecer aqueles que só querem nos transmitir o que sabem e aguçar a nossa curiosidade. E pode ter certeza que eles aprendem conosco também.


Nota mental: Não sou hipócrita e óbvio que ao longo da jornada nem tudo são flores. Quem nunca teve aquele professor implicante?

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