Uma jornada para aprender um outro idioma

Desde jovem (não que eu ainda não seja) sempre ouvi e aprendi o quanto seria importante eu ter um segundo idioma. Profissionalmente, sobretudo. Mas hoje eu vejo como é importante socialmente e culturalmente afinal, com internet e redes sociais, estamos cada vez mais globalizados, as distâncias são apenas físicas mesmo.


Eu comecei a estudar inglês adolescente. Por longos 6 anos todos os sábados eu ia estudar o verbo to be. Já adulta e trabalhando eu me financiei um intercâmbio de 45 dias em São Francisco, CA nos EUA. Agora me pergunta se eu sou fluente em inglês? Não! Porque falar outra língua implica em constância, em frequência, em contato. E eu estudando apenas aos sábados (os últimos anos chegando virada depois de “Fridays Nights” agitadas) e depois sem ter nenhum tipo de contato com a língua, não serviu muito para a fluência no idioma. Foi jogado fora? Óbvio que não. Guardei e guardo ainda o básico do aprendizado em inglês, mas fluência nunca tive.


O mês que eu passei no EUA foi uma experiência maravilhosa. Óbvio que eu me comuniquei em inglês todo esse tempo, mas eu estava na casa de uma família de brasileiros, me juntei com os brasileiros do meu curso e passei mais da metade do tempo matando aula, fazendo turismo, gastando dinheiro e bebendo! Pronto, falei tudo de uma vez só para não servir de exemplo. Hehehe.



Alguns anos depois eu precisei de inglês de verdade para um trabalho e passei um perrengue. Tive que meter as caras e estudar de novo para poder me virar com os estrangeiros. Óbvio que a minha base me ajudou muito. Muita coisa volta fácil, outras não, mas o mais difícil é a compreensão. Aí é que pega. Por isso que bato na mesma tecla, estudar uma língua sem frequência e contato com esse idioma não faz milagre. Estudo de idioma exige constância. Permanência. E é aí que entra minha segunda experiência com idiomas.


Tem 3 anos que vim morar na França. Interior da França. Antes de 2014, meu único contato com francês foi durante a copa de 94 que tivemos francês na escola e juro que tirando a palavra “coq”, que era o símbolo da seleção francesa, eu não lembro de mais nada. Em 2014 eu conheci meu então companheiro e nos primeiros 6 meses namoramos a distância e nos falamos em inglês. No ano seguinte ele veio para o Brasil morar comigo e entrou em um curso intensivo de português de 1 mês. Nós nos falamos em inglês por apenas 2 meses ainda, a partir do terceiro mês eu meio que forcei meu companheiro a entrar de cabeça no português e só falava com ele em português. Eu juro para vocês, em 3 meses ele se virava em português sozinho na rua. Milagre? Não! Constância. Contato todo o tempo com o idioma.



Para mim o buraco foi um pouco mais embaixo. Como meu companheiro aprendeu a falar português muito rápido eu me acomodei na ideia de aprender o francês. Achei que teria tempo, mas 2 anos depois eu engravidava e 1 ano depois decidíamos nos mudar para França o que tombou completamente meu planejamento de aprender o francês com calma. Para agravar ainda mais, meu companheiro aprendeu português no coração do Rio de Janeiro, sem criança e com muita gente disposta a ajudá-lo (seja falando em inglês, ou até mesmo arranhando no francês, porque graças a Deus nós, brasileiros, somos muito solidários). Já eu, caí em um vilarejo com 600 habitantes (80% deles com mais de 60 anos), com um bebê de 1 ano e meio e um joelho sem ligamento. Eu tive que lidar com problemas de mobilidade (a perna e depois transporte, porque aqui sem carro você não joga nem o lixo fora), tempo (bebê para cuidar), um marido sem didática alguma para ensinar e absolutamente PERSONE, ninguém que falasse um "A" em português. Foi duro. Foi tenso. Posso dizer que levei 1 ano para poder me comunicar com os outros, 2 para conseguir me fazer entender e 3 para ser “fluente” (coloco entre aspas porque não me considero ainda fluente, mas como minha vida é toda em francês – trabalho, pessoas, colégio da filha, administração – ouso dizer que me viro). E todo esse processo passou também por constância e frequência.



A mesma coisa que me aconteceu no intercâmbio em São Francisco. Mesmo estando no país, cercada do idioma, em casa eu só falava português, não tinha contato com outras pessoas, quando tinha eu não tinha base alguma para nada. Eu era uma ilha brasileira no meio do mar francês. Quando decidi fazer um curso intensivo de francês de 3 meses as coisas começaram a melhorar. Eu consegui a base que eu não tinha e senti um pouco do que meu companheiro deve ter sentido na chegada dele ao Brasil, a necessidade de se comunicar para “viver”.


Para sair da estação de trem eu precisava ao menos saber perguntar qual a direção eu precisava ir para chegar ao curso.

Da mesma forma para comer, no próprio curso, para tudo. Foi muito puxado, muito intenso e muito válido. Terminei sem aquela trava para falar. Uma vivência fora do país é muito bom para tirar essa trava. Porque se você precisar ir ao banheiro, você precisa falar pelo menos essa palavra no outro idioma.


Foi um divisor de águas, eu comecei a falar com os outros, errando, me perdendo, conjugando errado, falando como índio, mas dei o primeiro passo. Ainda foi um processo longo, pois como moramos bem isolados eu não vejo gente todo dia, por exemplo.



O povo francês não é acolhedor e solidário como o brasileiro. Tem gente que quando não entende o que você falou, passa a te ignorar. E ainda por cima aqui temos 6 meses de inverno (mentira, são só 3, mas para mim são 6, porque desde que faça 18 graus para mim é inverno) e na "friaca da macaca" eu saio menos ainda de casa. Quando minha filha entrou para escola foi o segundo divisor de águas (com 1 ano de França), eu comecei a ter mais tempo para mim, uma carteira de motorista francesa, liberdade. Me inscrevi como voluntária na biblioteca do meu vilarejo duas vezes por semana. Comecei a me comunicar com os velhinhos, comecei a ler em francês e também a ver a televisão francesa (sem “mamãe” vem brincar a cada 1 minuto). Ajudou DEMAIS!


O contato com a língua faz toda a diferença. Perceber em que momento usa determinada expressão, como conjuga aquela frase que você precisa falar quase todo dia, os diferentes sotaques, as diferentes velocidades.

3 meses depois do meu grito de liberdade eu tive uma apendicite e fiz uma cirurgia de emergência, passei 7 dias internada porque o negócio foi brabo. Meu companheiro não podia ficar no hospital comigo porque tinha que lidar com nossa filha, então eu passei uma semana cercada de gente falando exclusivamente em francês e como eu não conseguia dormir de dor assisti a todas as temporadas de Friends em francês enquanto estava no hospital (um terceiro divisor de águas talvez?). Pois é.


Tudo que eu tive de calma a minha vida inteira eu não achei aqui na França, mas é na adversidade que as coisas andam. É o empurrãozinho que tu não queria descendo uma ladeira sem freio, mas também é ele que te faz chegar onde você precisa.



Eu já falava um francês razoável mas não me sentia segura, por exemplo, para procurar trabalho, com medo de não falar suficiente. E ele caiu do céu. Por causa do voluntariado que eu fazia consegui uma indicação para ficar no lugar de uma pessoa em outra biblioteca. Morri de medo? Fato! Fui assim mesmo? Fui. Foi fácil? Não. Ainda é difícil, mas fará 9 meses que estou inserida no mercado de trabalho francês, trabalhando na minha aérea e mesmo assim não parei de estudar. Perdi as contas de quantos cursos onlines eu fiz. Fiz um segundo curso presencial no ano passado quando o confinamento acabou aqui, mas infelizmente confinamos de novo 3 meses depois e estamos assim até hoje (hoje na França, só podemos sair de casa para trabalhar, fazer compras, buscar criança na escola, e consulta médica, sob pena de 150 euros se estiver na rua por qualquer outro motivo e não podemos estar fora de casa também depois das 18h).


Além disso, trabalhando todos os dias da semana, e com a jornada extra de mãe eu não tenho tido muito mais tempo de estudar francês e sinto falta. Sinto que ainda preciso estudar mais, aliás, acho que em se tratando de idiomas você só pára de estudar quando morre porque a língua, assim como nós, está sempre sofrendo mudanças, aparecem expressões novas e precisamos acompanhar essas variações. Preciso me organizar para voltar e continuar.


Hoje fiquei sabendo que a Ih, Aprendi!, que conheci por meio de uma grande amiga, vai abrir a terceira turma de francês (e devo dizer que o custo tá muito baixo se comparando com tudo o que eu investi em mim) e se você quer aprender esse idioma que aprendi a amar e não quer passar os perrengues que eu passei (hehe) por não ter base alguma essa é a sua hora!



Com uma boa base você vai longe em qualquer língua. Se hoje alguém me pergunta o segredo para falar outro idioma eu diria que é força de vontade, cara de pau para cometer erros, contato com aquele idioma e muita, mas muita perseverança. Para alguns é mais fácil, para outros não. Mas a certeza é que todos podem!





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